Sumaré


Ver minhas mensagens Como usar o Sumaré Mail Criar um novo e-mail
Chat
Busca
Notícias
Assine
Anuncie
Sumaré, 07 de Setembro de 2010

Sumaré, 04 de Abril de 2010 - 17:57 hs

Lembranças Pascais

Lembranças Pascais


Tenho muitas e boas lembranças de Páscoas passadas.

Mas para falar dos Domingos de Páscoa, tenho que retroceder no calendário e falar das Sextas-feiras Santa e dos Sábados de Aleluia.

Retrocedendo um pouco mais, indo ao início da Quaresma, lembro-me que não se comia carne às quartas e sextas-feiras de todo esse período.

No sul do país, região onde nasci, e permaneci até a maior parte da minha juventude, os hábitos culturais e religiosos marcaram muito minha memória.

Meus pais, católicos ferrenhos, impunham aos filhos os ritos religiosos, a disciplina recebida e a tradição herdada. Assim, então, desde a Quarta-feira de Cinzas até ao Sábado de Aleluia, passava-se em abstinência de carne pelo menos dois dias por semana. Se o físico ficava mais fraco, o espírito ficava mais robustecido.

Na Sexta-feira Santa, os campos amanheciam dourados pelas flores de macela, planta da família das Achyrocline Satureoides, que tradicionalmente seria colhida nas primeiras horas desse dia. Depois, guardadas para consumo em chá, tomado bem quente com gemada e adoçado com mel. Esta receita simples, acabava com qualquer tosse que ousasse atacar o peito de algum gurí.

Com alguns amigos, lançava-me campo a fora, logo após ao café e voltava próximo ao almoço. Nesse período, os campos ficavam duplamente floridos: pelas flores naturais que brotavam de suas terras e pelas especiais que iam colhê-las. Muitas gurias bonitas, em grupos de familiares ou de amigas de toda a redondeza, estavam lá. O pretexto inicial era a colheita de macela, mas o objetivo final, era a ceifa de alguém para compor seu par.

Nesse Dia Santo, quase tudo era proibido. Poderia até se plantar a semente de um romance, mas saborear o fruto somente era permitido no dia seguinte, após ao meio dia.

Corriam estórias horríveis sobre alguns desatinados, que ousaram negligenciar os ensinamentos religiosos, ou a tradição. Pegar na mão da namorada, era passível de punição com alguma atrofia muscular; beijar a amada, era a razão de haver tantos bocas-tortas pela cidade; outras audácias, parece que ninguém audaciava audaciar.

Chegando o Sábado de Aleluia, aguardava-se até o sino da igreja dizer que tudo bem, já estava permitido quebrar-se todos os jejuns. Lentamente se ia entrando na vida normal, sem muita sede ao pote, pois a abstinência tinha enfraquecido os corpos.

Nunca fui dado a bailes, portanto meu destino eram os cinemas e as igrejas da região, onde encontraria alguma debutante, para juntos comemorarmos uma feliz páscoa, dali à poucas horas.

Não me lembro como era chamada a missa da meia noite, que lotava a igreja central. Mas sei que raramente faltei à alguma.

Finalmente, Domingo de Páscoa! Cedo, ao acordar recebia e retribuía presentes, do pai, da mãe, dos irmãos, do amigo, da amiga e de uma prima que nunca se esquecia de mim. Na falta de ovos de chocolate, servia o mais original: amendoim torrado e caramelizado com açúcar e chocolate, dentro de uma casca de ovo de galinha, colorida com tinta extraída de papel de seda.

No almoço, reunião familiar, comida especial, muita carne para compensar a carência do período passado.

Com o passar do tempo, tudo ficou diferente. Alguns ensinamentos da Igreja mudaram; a tradição é outra; deixei aquela região do país, nunca mais vendo um campo amarelado por macela; remédios mais eficazes contra a tosse foram desenvolvidos; os familiares ficaram mais distantes e a prima desapareceu.

Ficou para mim, só a certeza de que a Páscoa é um renascer de esperanças.


João Ligório João Ligório
Editor do site e-estudar.com.br, escreve sobre cotidiano e comportamento
Contato: e-estudar@e-estudar.com.br
Início da página  Índice de Notícias  Imprimir  Enviar por e-mail  Comentário  
Powered by Desktop ® Desktop Online Informática S/C Ltda - 1999/2003
info@sumare.com.br / Fone Fax 0 xx 19 3873.4266