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Sumaré, 07 de Setembro de 2010

Sumaré, 21 de Janeiro de 2010 - 09:52 hs

A maneira dela me olhar

A maneira dela me olhar



Ela era pessoa conhecida no lugar onde residia e andava, não audaciava ir muito longe do seu doce lar.

Não era bonita, nem feia, nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra. Mas era.

Esta condição dela ser é que fazia a diferença. Quando a conheci, ela estava num casamento que parece já durar alguns anos. Seu marido, homem já meio que desfinhando-se fisicamente, o casal parecia feliz um ao lado outro e dos filhos do casal.

Ela continuou sendo, e o marido, desfinhando-se. Cada vez ele mais amarelo que um girassol, até que foi ficando roxo e enrugado como um figo e não demorou muito para que o pior acontecesse.

Passou pouco tempo e comentava-se que ela estava sendo consolada por um antigo namorado que não tivera a sorte de casar-se com ela naquela época, e agora que o outro privilegiado estava ceifando nos Campos do Senhor, via a oportunidade de resgatar seu antigo amor, que julgava ser uma predestinação divina.

"O que é do homem, o bicho não come", dizia ele. Soubera pacientemente esperar a sua vez e ela chegara.

Era um rapaz mais jovem que ela, boa aparência e de tipo atlético. As comadres da redondeza camuflavam a inveja que sentiam dela, comentando com cinismos que ela merecia ser feliz, que precisava um companheiro para ajudar criar as crianças e todas as coisas desse gênero.

Em menos de dois anos, falava-se de que o rapaz, agora senhor, estava meio adoentado. Como o seu antecessor, estava também amarelado, com olhar cavernoso, voz fraca, magérrimo que impressionava quem o visse agora, mesmo sem conhecê-lo antes.

As aparências não enganaram. Deu-se o fatídico acontecimento: o segundo esposo dela faleceu como um passarinho enquanto dormia. Fora assim que correu a notícia pela redondeza.

Novamente ela sozinha. Passado o período das condolências, vieram os mesmos comentários anteriores que ela merecia ser feliz, etc. e tal.

Não demorou muito para que já tivesse outro gajo na área. Deste, pouco se falava, sua biografia era sigilosa, talvez a pedido dele ou por vontade dela, ou simplesmente porque era um assunto pessoal e ninguém tinha nada que saber da vida do casal, ora!

Como nem tudo é perfeito, em menos de um ano a desgraça novamente bateu à sua porta. O velório e o enterro do terceiro foram menos alardeados que os dos dois primeiros.

De lá para cá, já se passou algum tempo. Dia desses, a encontrei e demorei reconhecê-la, não porque ela estivesse envelhecida, pelo contrário, parecia mais jovem que antes, vê se pode!

Ela olhou-me fixamente e alçou um riso maroto. Eu senti frio na espinha; embrulho no estômago; gosto amargo na boca; as pernas bambearem e ouvi uma melodia angelical. Quando me senti restabelecido, bradei: ESTOU FORA DESSA!

Tive proteção divina, senão seria impossível estar aqui escrevendo estes fatos. A não ser que fossem psicografados.



João Antonio de Castro Ligório,
"sabe onde reside o perigo"


João Ligório João Ligório
Editor do site e-estudar.com.br, escreve sobre cotidiano e comportamento
Contato: e-estudar@e-estudar.com.br
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